Entrevista do ministro Fernando Pimentel para O Estado de S. Paulo

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Entrevista do ministro Fernando Pimentel para O Estado de S. Paulo

Mensagem  Admin em Ter Abr 10, 2012 2:04 pm

Entrevista do ministro Fernando Pimentel para O Estado de S. Paulo

09/04/2012

Publicada dia 08/04/2012

Bancos privados são avaros no crédito

Novo patamar. Segundo Fernando Pimentel, o dólar a R$ 1,80 é uma sinalização do Mantega ‘que quer mantar a taxa por aí’

Fernando Pimentel,ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior

Renata Veríssimo e Adriana Fernandes

O ministro do Desenvolvimento, Fernando Pimentel, fez uma série de cobranças à iniciativa privada em entrevista ao Estado, logo após o anúncio das medidas de apoio à indústria, na semana passada. Ele chamou os bancos de "avaros" na concessão de crédito em "momentos difíceis", classificou a ideia de desindustrialização como "tosca" e disse que o governo não vai dar mais incentivos às montadoras.

"O setor já tem muito incentivo", disse Pimentel. "Não vejo necessidade de mexer." Pelo contrário, Pimentel cobrou investimentos em pesquisa e inovação. "Não podemos dizer que ela (a indústria automobilística) está fazendo jus ao tamanho do mercado que o Brasil é."

Pimentel baixou o tom, porém, ao comentar ao estudo que teria sido encomendado por ele prevendo medidas mais agressivas para influenciar a taxa de câmbio. "Quem sou seu (para pedir medidas mais agressivas)", disse o ministro. "Sou mineiro". A seguir, trechos da entrevista de Pimentel.

Os resultados do pacote aparecerão quando?

O efeito não é no curto prazo, mas será muito positivo. Para a desoneração da folha, temos a exigência da noventena. Mas, nas outras medidas, não. Acho em 90 dias tudo estará regulamentado e rodando. O BNDES em 10 e 15 dias já estará rodando as linhas com taxas novas.

Era preciso oferecer capital de giro com taxas subsidiadas?

Há quem diga que o BNDES deveria se limitar aos investimentos de longo prazo, mas infelizmente o nosso mercado de crédito privado tem sido meio avaro na concessão de crédito (risos). Qualquer sinal de crise, eles restringem. Essa é uma queixa muito grande. O BNDES acaba tendo que suprir uma escassez do crédito privado.

O que pode ser feito?

Não sei se o BC pode estimular com alguns mecanismos, reduzir o compulsório. O aumento dos juros e do spread não faz sentido. A Selic está caindo. Não dá para entender. Eles estão se precavendo de um risco hipotético de crise. Na hora em que a economia mais precisa de crédito, justamente quando as coisas não estão tão bem, o setor privado se retrai. É natural que o setor estatal acabe tendo de cobrir. Não adianta baixar só o juro se o spread não cai.

A queda da taxa Selic ajuda no problema cambial?

Ajuda, mas não é decisiva. A economia sólida e uma política fiscal consistente acabam atraindo capital. E os nossos juros ainda são bem mais altos do que a média internacional. Isso tudo faz entrar muito dólar. Teremos que conviver daqui para frente com a moeda mais valorizada do que foi historicamente. Não estou dizendo com isso que vamos deixar valorizar demais. Pelo contrário.

O ministro Mantega falou que o dólar em R$ 1,80 e razoável...

Essa taxa não é nenhuma maravilha, mas é razoável. Ele um pouco que sinalizou - não vou dizer que é um novo patamar - mas que vamos tentar manter essa taxa aí.

Essa taxa é boa ?

A indústria tem cadeias produtivas muito integradas com fornecedores lá fora. Não tem uma taxa de câmbio que atenda todo mundo. A taxa que vai ser boa para quem está muito mal será ruim para quem está melhor.

Mas o Sr está confortável com R$ 1,80?

Quando a gente vai viajar é muito bom (risos). Mas se eu for exportar é ruim demais. Para quem está fora do padrão de competitividade, de fato não é. Temos que ajustar. Como não vamos administrar o câmbio, temos que compensar isso com outro tipo de medida. É o que estamos fazendo agora.

O regime automotivo só começa em 2013? Como fica 2012?

O setor já tem muito incentivo. Não vejo necessidade de mexer. Fizemos medidas para caminhões e ônibus. As condições de financiamento são muito vantajosas e vão propiciar uma renovação da frota. No caso de automóveis, não consideramos que havia urgência.

O que se espera do novo regime automotivo?

A nossa indústria automobilística é muito sólida, mas passou para o século XXI sem ter feito absorção de inovação adequada ao tamanho do nosso mercado. Não podemos dizer que ela está fazendo jus ao tamanho do mercado que o Brasil é. Ela tem que estar à altura. Fizemos medidas para impulsioná-la nessa direção. Que tragam para cá os departamentos de engenharia de produção, pesquisa e inovação. Queremos produtos concebidos no Brasil. Capacidade de fabricar nós temos. E queremos mais conteúdo regional. Não tem motivo para o quarto maior mercado do mundo não ter uma indústria de autopeças equivalente. Tem que ter.

Os especialistas apontam que há desindustrialização...

A ideia de que há desindustrialização, porque caiu a participação no PIB, é tosca. Ela cai porque sobre muito o agronegócio, que é extremamente competitivo. Isso deve ser motivo de orgulho. Não é este o problema.

O que está ocorrendo, então?

Duas coisas. Primeiro, uma integração acelerada das cadeias produtivas com os fornecedores de suprimento do exterior. Não é um fenômeno só brasileiro. Ocorre porque a Ásia está transformando em commodities uma boa parte dos suprimentos industriais. Chip de computador hoje é commodity. Essa é uma tendência inescapável. Mas não vamos fechar o mercado. Temos de ser mais competitivos no que temos mais vantagens. Isso é erroneamente confundido com desindustrialização.

Quer dizer que alguns setores no Brasil vão perder a batalha?

Não sei, porque chip de computador nunca produzimos.

E o setor têxtil?

Acho que o têxtil resiste à concorrência. A importação no Brasil é 6% do mercado. Como que eu vou falar que a indústria têxtil está correndo risco de morte? Não está. Temos que aceitar a ideia de que a indústria já tem e terá cada vez mais cadeias produtivas muito mais integradas. O segundo ponto que vem ocorrendo é o envelhecimento do capital industrial. A tecnologia acelerou muito. Acompanhar este processo exige agilidade, capacidade de inovação e de absorção de conhecimento de tecnologia muito grande, que eu confesso, o Brasil não tem.

O que pode acontecer?

Tem coisas em que não vamos conseguir ser tão competitivos como a China ou Coreia. É uma batalha. Quero crer que estamos ganhando mais do que perdendo. Se ficarmos parados, perderemos cadeias produtivas que podiam estar aqui. Podemos não só mantê-las, como atrair outras. O mundo está mostrando que quem tem a demanda controla a oferta. Só não controla se não quiser. E nós temos um mercado de quase 200 milhões de brasileiros. A bola está com o Brasil. Por isso que os caras querem investir aqui, vender carro aqui. Por que é que vamos abrir mão desse poder? Você quer vender carro? Quero. Então vem fabricar no Brasil. Estamos proibindo importação, fazendo protecionismo? Não.

Em quais outros setores o governo pode fazer isso?

Nós controlamos a demanda em geral. Estamos trabalhando para todos. Estamos trabalhando no fármaco com muita intensidade, na química fina, no eletroeletrônico, fertilizante.

O Brasil não poderá ser retaliado na OMC com a alta da Cofins nas importações?

Não fizemos nada que ferisse uma regra da OMC. Vai ter choro e ranger de dentes, pode ser que tenha, sempre tem, mas abrir painel contra a gente, não vai ter.

O protecionismo aumentou?

Não tem protecionismo. Essa crítica é injusta. Estamos praticando defesa comercial. Qual o limite? O limite dos acordos, da legalidade, dos regulamentos internacionais. Protecionismo é outra coisa. Não criamos burocracia secreta para barrar importação, Não inventamos barreiras absurdas.

O "Estado" teve acesso a estudo do seu ministério propondo cobrança generalizada do IOF para o capital externo...

Não vem não.

O ministro Mantega incluiu as medidas cambiais no pacote para a indústria.

Essa é a área do Guido. Ele que pode falar sobre isso. Eu apoio integralmente todas as iniciativas do Guido nessa área. Até agora, tudo que ele fez foi muito preciso. Ele tem uma postura que é corretíssima para um ministro da Fazenda que é estar muito atento. É cauteloso porque não vai fazer nada maluco. Mas não deixa o problema se avolumar. Eu confio nele.

O sr. não pediu medidas mais agressivas?

Quem sou eu. Sou mineiro.

Usar macroprudenciais é mais eficaz do que os juros?

Elas se mostraram mais efetivas do que os juros. A Selic está caindo, mas no mercado privado os juros e o spread continuam subindo. Então, há essa mistificação da Selic como sendo grande instrumento. Tem que relativizar. Nem tanto ao mar, nem tanto a terra. Se cair (os juros) volta a inflação, se subir para a inflação. Não sei. O BC fez uma coisa inteligente. Manteve a redução dos juros, botou as macroprudenciais e deu uma travada boa na inflação. Ela caiu e meio que desmistificou isso.

Muitos analistas apostam que o Copom terá de subir a taxa Selic em 2013.

Ah, não, gente!Vamos terminar primeiro 2012. O BC tem todos os instrumentos necessários, e sabe usá-los, para manter a inflação na meta. Agora, dentro da meta é no centro? Não sei. Pode ser um pouco acima, um pouco abaixo.

E o pedido de informações da Comissão de Ética sobre sua atividade como consultor?

A comissão não abriu investigação, mas me pediu esclarecimentos sobre a representação que está lá. Vou apresentar e ver a manifestação dela. O que estará disposto nos esclarecimentos será suficiente para dirimir as dúvidas, se é que elas existem, e encerrar o assunto.

E no Congresso?

Aí, é luta política. É só para fazer um "esgrimazinho", porque não tem efetivamente nada. Está tudo explicado.

Fonte: MDIC

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